Ainda não há lugar para a D. Constança colocar a suas coisas à venda. É um princípio de tarde chuvoso e o vendedor de filmes pornográficos que lhe cede o lugar foi almoçar e ainda não arrumou as coisas. Enquanto espera que ele volte, retira do saco uma caixa com uns sapatos de noiva e coloca-os junto às coisas da banca do lado. “Posso colocar aqui um par de sapatos?” pergunta à vendedora. “Se perguntarem o preço são 25 euros...” O resto da venda que traz consigo abriga-a debaixo dos plásticos que protegem os vídeos do mau tempo. “Estes coitados têm a vida estragada hoje", lamenta ao olhar para as lonas verdes que cobrem a feira.
A D. Constança é uma simpática senhora viúva e reformada que vende na Feira da Ladra há mais de 15 anos. É alentejana, de Grândola, e vive em Lisboa há mais de 50 anos. “Venho aqui para passar o tempo e vender umas coisinhas que tenho lá em casa, fiz aqui muitos amigos, pessoas de respeito que me acarinham (...) tenho esta cegueira de vir para aqui mas é mais para passar o tempo”. Os lugares na feira estão demarcados no chão e são pagos à câmara. Mas a D. Constança como muitos outros que vendem naquele espaço não paga. As pessoas que vivem da feira e que têm o aluguer, quando se vão embora cedem a banca a quem queira ocupá-la. Muitas vezes a D. Constança “vem à toa” sem saber se arranja lugar ou não.
Saiu de casa dos seus pais apenas com 12 anos para começar a trabalhar. Encontrou um emprego num restaurante. “Ensinaram-me a servir à mesa, a atender os clientes e fizeram de mim uma mulher”. Ao mudar-se para Lisboa começou a trabalhar por conta própria. “Tive um lugar de frutas, hortaliças e diversos”. Depois veio a doença do marido e teve de deixar o trabalho que tinha por falta de tempo e optou por empregar-se num pronto-a-vestir. “Tive de deixar tudo, mas venci por minha conta (...) sem saber ler nem escrever consegui vencer com a minha força.” Mãe de três filhos, D. Constança fala do maior desgosto da sua vida que foi a morte de uma das suas filhas com apenas 13 meses de vida vítima de meningite. "Não posso prosseguir mais”, recorda já com a voz tremula.
Enquanto o vendedor de filmes pornográficos não chega do almoço, D. Constança espera junto do seu vizinho do lado, o vendedor de discos de vinil. António Vasconcelos, mais conhecido por Toni é o melhor amigo da D. Constança naquelas “andanças”. Toni é o engatatão da feira. Quarentão inveterado, espalha o seu charme pelas freguesas. Não as deixa fugir sem mais nem menos... cativa-as com palavras doces, envolve-as com a sua manha, e ataca usando o seu sotaque francês. Toni foi emigrante na Suíça e no Brasil. Parece que era muito rico, falou de casas e de grandes carros, mas perdeu tudo como muitas das pessoas que vieram vender para esta feira. Desde que voltou para Portugal já fez muitas coisas, até ser taxista. Agora vende discos de vinil, discos raros. D. Constança sabe que pode contar sempre com ele para alguma eventualidade. São muito amigos, muito cúmplices e vigiam as coisas um do outro quando algum dos dois tem de estar ausente. Todos os vendedores dizem que é uma boa senhora, muito simpática e pronta para ajudar toda a gente.
O vendedor que cede lugar chegou e a D. Constança ajuda-o a levar as coisas para o carro para ver se ainda consegue aproveitar o dia pois a chuva não deu tréguas. Lá arranjou lugar, esticou o pano rosa no chão e colocou a venda que trazia consigo, os sapatos de noiva, uma pista de carros, umas carteiras, uns lenços e algumas peças de roupa... “São coisas que me dão, coisas que tenho lá em casa, roupinhas que já não servem aos meus filhos, calças, casacos e fatos meus que ainda estão novos e vendo-os. Quero vender, mas não se vendem porque está mau, não há dinheiro para as pessoas comprarem.” Depois senta-se na cadeira de praia e olha em volta para a feira e para as pessoas que passam e desabafa, “não se vende nada, tenho dias que estou aqui o dia inteiro e não me estreio... não se vende nada... abalo daqui doente... mas pronto, vou passando o tempo. Chego a estar aqui todo o dia sem beber um copo de água só para não sair daqui.”
A chuva não ajuda e os plásticos são retirados e colocados vezes sem conta para as coisas não se estragarem. Para passar o tempo nada melhor que uma boa conversa com os amigos vendedores, sobre as pessoas que vêm para a feira tentar fazer “negócios da China”... Pois a proveniência da maioria dos objectos vendidos é completamente desconhecida, e o que vale a muitos é que ali não vai a ASAE (Autoridade da Segurança Alimentar e Económica), e se fosse, toda a essência desta feira estaria perdida.
O dia está escuro e farta de estar ali sentada sem vender nada D. Constança decide ir embora. O almoço seria em sua casa. A viagem foi até ao Alto do Pina na carrinha branca do irmão da sua nora, que por acaso também vende na Feira da Ladra. Ao chegar mostrou a casa e as fotos de família que guarda religiosamente. No quintal estava a sua amiga de estimação, uma galinha poedeira. Tinha o cordel por onde está presa, enrolado na vassoura que estava encostada ao muro... “enrolou-se toda aqui na corda, 'tadinha dela (...) ela é tão querida esta galinha...” Tinha posto um ovo, mais um para juntar aos outros que D. Constança guarda em casa. Eram cinco da tarde, o almoço foi um bife com batatas fritas feito por si. Depois da sobremesa ainda pensava em ir divertir-se. "Vamos à Baixa, à Casa Alentejo, há lá baile!"